Cardoso estuda possibilidade de ingressar na Maçonaria.
Folha de
São Paulo, 06/11/1986.
Dermi Azevedo. Da Reportagem Local.
O senador peemedebista Fernando Henrique Cardoso (SP), 55, candidato à reeleição no próximo dia 15, está a um passo de seu ingresso na Maçonaria. Os contatos entre ele e os representantes do rito dos "livre-pensadores" no Grande Oriente do Brasil, seção paulista, são frequentes. Falta apenas definir quando e onde será "iniciado" nos rituais maçônicos, e se poderá atender à exigência de assiduidade às reuniões do culto ao "Grande Arquiteto do Universo", como Deus é conhecido nessa instituição.
Os primeiros contatos entre Fernando Henrique e a Maçonaria ocorreram sigilosamente, como de praxe, em 1967, quando ele ensinava na universidade francesa de Nanterre. Entre os dirigentes maçônicos que o convidaram para ingressar na ordem estava Jacques Mitterrand, então grão-mestre do Grande Oriente e primo do presidente socialista François Mitterrand.
Ao voltar em definitivo ao Brasil, em 1978, Cardoso continuou mantendo contato com maçons do Grande Oriente do Brasil, pertencentes às lojas que praticam o rito maçom chamado "francês", "moderno", "racional" ou dos "livre-pensadores", que não admite a exigência da crença em Deus como pressuposto para a iniciação maçônica. Considerado o mais liberal dos ritos maçons, o rito "racional" entende, segundo seus princípios, que a crença em Deus é um assunto do foro íntimo de cada pessoa.
O nível dos contatos entre o Grande oriente francês e Cardoso foi repassado aos dirigentes maçons de São Paulo pelo próprio Jacques Mitterrand. Há um consenso, entre os líderes maçons paulistas, de que há interesse recíproco na filiação com base no argumento de que se uma das partes não quisesse discutir o assunto, os contatos já teriam sido encerrados.
O Brasil tem aproximadamente duzentos mil maçons, dos quais cerca de cinquenta mil "em atividade", ou seja, frequentando regularmente as lojas e cumprindo as obrigações de culto ao "Grande Arquiteto do Universo" e de filantropia. O Estado de São Paulo concentra quinze mil dos maçons brasileiros, a maioria deles no interior, todos ocupando posições consideradas influentes na política, no setor empresarial e nas universidades.
Noventa por cento dessas lojas, em todo país, seguem o rito escocês, que é "teísta", isto é, exige a crença em Deus como condição essencial para a admissão dos filiados. O rito francês é o segundo em importância, sendo seguido por cerca de sessenta lojas no Brasil. Foi introduzido no país no século passado.
Os dirigentes maçons franceses com os quais Cardoso manteve os primeiros contatos com vistas à sua entrada na Maçonaria integram uma corrente conhecida como "esquerda democrática", no Grande Oriente da França. Essa tendência é uma das principais bases de apoio do Partido Socialista francês. Depois dos entendimentos iniciais, em 1967, o senador do PMDB voltou a dialogar com os irmãos maçons franceses em 1977, quando foi professor no Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento, uma instituição universitária francesa.
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